[Paraguai] Estudantes exigem destituição de burocrata que exaltou o carrasco Stroessner

Reproduzimos matéria do Jornal A Nova Democracia

A capital do Paraguai, Assunção, tornou-se o palco de uma vigorosa e justa mobilização estudantil contra afirmações de um burocrata paraguaio que normalizavam os horrores do regime militar no país. No dia 26 de janeiro, estudantes das faculdades de Ciências Sociais, Medicina, Filosofia e Politécnica da Universidade Nacional de Assunção (UNA) cercaram a sede da Agencia Nacional de Evaluación y Acreditación de la Educación Superior (ANEAES). O alvo do protesto é José Duarte Penayo, presidente do órgão e filho do ex-presidente Nicanor Duarte Frutos, que em recentes declarações defendeu o sanguinário regime de Alfredo Stroessner, classificando-a como um governo “constitucional” e “benigno em questões de morte”.

A reação foi imediata. O Grêmio de Ciências Sociais da UNA emitiu um comunicado condenando a fala e exigindo a destituição de Duarte Penayo. Para os estudantes, é inadmissível que o responsável pelo credenciamento das universidades do país seja um apologista do fascismo que nega a verdade histórica. Iván Isasi, membro do núcleo estudantil da Faculdade de Ciências Sociais (FACSO), afirmou que “somente através da pressão social conseguiremos removê-lo do poder”, denunciando que Penayo legitima um regime militar imposto por um golpe e mantido através de uma constituição totalmente fraudada, enquanto a resistência era brutalmente perseguida e assassinada.

Foto: ABC/Reprodução.

Em entrevista ao jornal La Unión, José Duarte Penayo destilou seu veneno ao afirmar que Stroessner “matou menos pessoas do que os governos liberais” e que o regime teria sido “benéfico” em termos comparativos. Ao ser questionado se Stroessner era um ditador, respondeu enfaticamente: “Não, para mim ele foi um presidente constitucional”. Longe de se retratar, o burocrata reafirmou suas posições em 23 de janeiro, alegando que suas opiniões são fruto de “reflexões históricas” e acusando seus críticos de motivações puramente partidárias e interesses oportunistas.

José Giménez, estudante de Medicina, rebateu as declarações classificando-as como um “completo absurdo” e fruto de uma “retórica fascista”. Ele lembrou que, durante os 35 anos de trevas, nenhuma universidade pública foi fundada e o pesquisa cientifica foi sistematicamente asfixiada. “Imagine dizer algo positivo sobre Hitler na Alemanha. Isso te leva à prisão. Aqui, nada acontece e, além disso, ele ocupa um cargo muito importante”, denunciou Giménez. O Centro de Estudantes de Medicina reiterou que a postura de Penayo é uma falha incompatível com o papel de garante da qualidade educacional.

A herança de sangue e o monopólio da terra no ‘Stronato’

Filho de um imigrante alemão e conivente com refugiados nazistas, o general Alfredo Stroessner tomou o poder em 1954 via golpe de Estado. Seu regime, marcadamente anticomunista e serviçal aos interesses do EUA, participou da nefasta Operação Condor, articulada pelo imperialismo ianque. O saldo de seu regime é aterrador: estima-se que 18.772 pessoas foram torturadas e mais de 150 mil presas por motivos políticos. Entre as vítimas, centenas de crianças e adolescentes foram encarceradas, algumas nascidas nas masmorras. Paraguai: Ossos são encontrados na casa do general Stroessner, facínora elogiado por Bolsonaro – A Nova Democraciaanovademocracia.com.br

Além do terror de Estado, Stroessner promoveu uma “reforma agrária às avessas”, distribuindo 6,7 milhões de hectares de terras públicas (as “terras mal habidas”) para generais e latifundiários estrangeiros, inclusive brasileiros. O atual presidente paraguaio, Mario Abdo Benítez, é filho de um secretário de Stroessner e dono de 20 mil hectares recebidos de Stroessner. Essa política criou uma cicatriz permanente de desigualdade fundiária que rivaliza com a do Brasil, onde o carrasco morreu tranquilamente em 2006, exilado em Brasília, sem nunca ter prestado contas por seus crimes de lesa-humanidade.

Durante o “stronato”, como ficou conhecido o período, o regime beneficiou latifundiários brasileiros, como o “rei da soja” Tranquilo Favero, que recebeu milhares de hectares de forma irregular. Favero, em tom saudosista, já afirmou que camponeses devem ser tratados “como mulher de malandro, que só obedece na base do pau”. Essa herança é o que Duarte Penayo tenta rotular como “processo de modernização”, ignorando o sangue derramado para sustentar o lucro dos novos coronéis do agronegócio e a estrutura de opressão do Partido Colorado, que governa quase ininterruptamente desde 1947.

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