Reproduzimos matéria do Jornal A Nova Democracia
Um protesto contra o assassinato do jovem estudante Leonardo Ribeiro, de 19 anos, pela Polícia Militar (PM), reuniu cerca de cem pessoas nas redondezas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) no dia 6 de fevereiro. Leonardo foi assassinado no dia 02/02 em uma abordagem irregular e violenta depois de assistir ao jogo do Flamengo com amigos.
O protesto reuniu familiares, ativistas e colegas e companheiros de Leonardo, especialmente da Torcida Jovem do Flamengo (TJF) e do Bonde do Mao, um coletivo rubro-negro de membros oriundos da TJF, ambas agremiações às quais Leonardo fazia parte.
A manifestação começou dentro do campus da Uerj, instituição da qual Leonardo era aluno, e depois seguiu até a Praça Maracanã, interrompendo o tráfego da Avenida São Francisco Xavier durante o caminho. Os manifestantes gritaram palavras de ordem como Não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da Polícia Militar! e Chega de chacina! Polícia assassina! durante o trajeto e revezaram intervenções por duas horas na praça.
Durante todo o trajeto, a PM mobilizou agentes fortemente armados e mascarados com balaclavas para intimidar os manifestantes. Os policiais também proibiram o bloqueio de vias pelo protesto, embora seja uma garantia legal do direito de protesto.

‘Leonardo era um ativista político’
Em uma de suas intervenções no protesto, o pai de Leonardo, Flávio, defendeu o histórico de seu filho enquanto um ativista político que sempre lutou por justiça. Ele também denunciou a abordagem como “ridícula” e denunciou a opressão policial que já vitimou outras pessoas além de Leonardo.
“A coisa está piorando, não vai parar no Leonardo, a gente nunca sabe quem é o próximo. Ele foi executado com um tiro de fuzil a queima roupa nas costas! (…) Independente quem quiser falar o que falar, esse fato é contundente, não interessa interpretação X ou Y, é um fato. Essa abordagem da polícia é assim? Sociedade, é isso que vocês querem? Tiveram 120 mortos lá (na Chacina da Penha) e a sociedade falou ‘é isso mesmo’. É isso que vamos aceitar como sociedade? Vamos então assumir que é barbárie e tudo vale?! (…) Qual o limite? Até onde pode ir? Qual o instrumento para combater um cidadão em uma abordagem policial, um fuzil? (…) Eles têm que trabalhar certo! A polícia é instrumento desta política calhorda, assumidamente assassina e quando assume essa política ganha força. (…) Essa abordagem foi no pé do Morro dos Macacos, mas e se fosse na Ataulfo de Paiva? Ou a gente se mobiliza como coletividade ou esquece porque está piorando”, afirmou Flávio relembrando da Chacina da Penha.
Finalizando sua intervenção, o pai de Leonardo indagou: “Espero que o Leonardo tenha deixado um legado, nem que seja de resistência. É amor, mas pra ter espaço pra isso a gente precisa de resistência”.

Entre uma intervenção e outra, os presentes entoaram gritos de protesto como Ê,ê,ê,ê o Leo era estudante e não tinha que morrer!, Chega de chacina, PM na favela e ‘israel’ na Palestina! e Chega de matança, o Cláudio Castro é assassino de criança!.
A avó de Leonardo também participou do protesto e denunciou o caso. “Leonardo foi abordado com um fuzil, estava com a mão levantada de costas para o policial, este chegou perto dele e disse algo muito ofensivo e provocativo. Leonardo então vira e dá tapas, quem briga com tapas? Um quase adolescente de 19 anos reagiu com tapas uma provocação e recebeu um tiro pelas costas de fuzil”, disse ela.
Um membro do Pelotão Central da TJF e amigo de Leonardo interveio contando que o amigo, que tinha entrado na torcida há dois anos, era engajado em causas sociais como a pauta pelo fim da “escala 6×1” e a questão Palestina, assim como a Torcida Jovem, que foi fundada durante o regime militar e é marcada pelas lutas sociais.
“Hoje a Torcida Jovem, o Pelotão Central, se encontra aqui por justiça pelo Léo, pela vida […] porque a gente não pode mais aceitar que aqueles que são treinados e pagos para nos servir e proteger tirem as nossas vidas. Ele era uma pessoa especial, todos que o conheceram sabem disso”, disse ele.
O manifestante ainda contou o caso de outro companheiro assassinado pelo velho Estado: “Há dois anos perdemos o Rico, outro companheiro nosso que teve a vida arrancada por uma abordagem policial. Quantos a gente vai ter que enterrar? Quantos vamos ter que aceitar? (…) Chega dessa política de matança! Se fosse um filho de um comandante do BOPE? Se fosse filho de alguém que tenha um certo poder?”

Outro amigo de Leonardo e integrante do Bonde do Mao denunciou: “Infelizmente o Leonardo foi brutalmente assassinado e a gente quer resposta porque qualquer coisa que venham nos falar não vai nos conscientizar que ele tomou dois tiros por uma palavra de um moleque de 19 anos. Os policiais entraram na mente dele? Ou ele que entrou na mente dos policiais?”
O ativista explicou as causas que fizeram o Leonardo se interessar pelo coletivo Bonde do Mao: “A gente é do Bonde do Mao, coletivo antifascista rubro-negro, oriundos da Torcida Jovem, a gente busca, dentro das arquibancadas, lutar contra as forças que oprimem nossa torcida e por isso somos perseguidos. Um dos nossos jeitos de buscar justiça é estando aqui e nós estamos aqui por ele, sei que o Léo estaria aqui e em qualquer lugar que o convocássemos. Ele entrou para a torcida muito empolgado porque o fundamento da nossa torcida é de buscar nossas causas, apoiar os que precisam e são reprimidos, sempre fomos unidos nessas causas.”
Uma ativista da Executiva Fluminense de Estudantes de Pedagogia (ExFEPe) acusou o velho Estado em mais um de seus ataques de sua política de opressão e extermínio do povo pobre brasileiro: “A gente entende que a grande crise de decomposição geral do capitalismo brasileiro tem feito ações bárbaras como essa que aconteceu com Leonardo. Estado dirigido pelas grandes burguesias e latifúndio a reboque do imperialismo, principalmente ianque, e que assassinam os mais conscientes, que lutam e que intervêm na realidade brasileira de forma contundente. A gente repudia este crime, que além de um brutal assassinato, é consequência da crise de decomposição geral do capitalismo burocrático. A única solução é nos inspirarmos nas revoltas populares justas como por exemplo os Panteras Negras dos EUA, os camponeses pobres brasileiros que tem organizado uma verdadeira resistência dando um ‘pau’ no Bope. Essa é a única forma contra toda a opressão do povo trabalhador e contra o terrorismo do Estado. Rebelar-se é justo!”.

‘Tiro à queima-roupa nas costas diz tudo’, comenta pai de Leonardo ao AND
Em depoimento ao AND, Flávio, pai de Leonardo, denunciou: “Eu só tenho uma coisa para dizer: só quero justiça porque execução sumária, tiro à queima-roupa nas costas, diz tudo”.
Um amigo de Leonardo, em relato ao AND, afirmou que “Leo era um menino bom, solícito e prestativo, dificilmente você via ele reclamando da vida ou de casa. Era alegre e amava o Flamengo, sua alegria era estar com a gente e por isso estamos aqui por ele”.
E continuou: “Poderia ter uma arma não letal, dado um mata-leão, até um tiro na perna que não levasse a esse final. O sentimento é de tristeza pela perda do nosso amigo e revolta por termos polícias despreparados e que matam estudantes. (…) Viemos aqui hoje querer justiça por ele, (viemos) lutar pela vida. Quantas vidas vão ser ceifadas ou arrancadas porque a polícia não tem preparo? A sociedade não aguenta mais. Agora tem que sobreviver à polícia? Aqueles que eram pra servir e proteger? Não dá!”

Cantos em memória a Leonardo
No final do ato, os integrantes da TJF honraram a memória de Leonardo com cantos do time de coração do jovem e cânticos da TJF que exalam combatividade e honram líderes e movimentos anti-imperialistas e comunistas.
A sessão começou com o grito “A Jovem unida é muito forte, não teme a luta, não teme a morte. Avante companheiros que essa luta é minha e sua. Unidos venceremos e a porrada continua!” e foi seguida do cântico “Salve Sendero Luminoso, sangue bom. Eu sou guerreiro, sou da Jovem do Mengão! Sou eu, sou eu, sou eu da Jovem Fla, sou eu!”.
Depois, os membros entoaram um canto no qual se definem como “um guerrilheiro que sozinho mata mil” e termina com o grito de “Saddam! Hussein!”. Outro grito diz que a torcida não se intimida por ninguém, “nem com a PM”.
Depois dos gritos, os membros fizeram questão de ressaltar que a sessão de comemoração foi em homenagem à dedicação de Leonardo à TJF e às causas progressistas e populares. Também por conta disso, os torcedores hastearam bandeiras da Palestina e da Venezuela.
Violência contra o povo
O caso de Leonardo faz parte do cenário nacional de aumento da violência policial em todo o Brasil, no campo e na cidade.
Em Curitiba, policiais espancaram dezenas de moradores de rua em Parolin e mataram cachorros com tiros de arma de fogo. Já em Pernambuco, policiais prenderam o ativista Mateus Galdino durante uma manifestação contra o imperialismo ianque na Venezuela e balearam um correspondente local de AND que realizava a cobertura deste mesmo ato.
Por outro lado, os povos do mundo têm resistido cada vez mais e sido exemplo para outros. É o caso das manifestações combativas e das guardas de autodefesa armada das massas no EUA que utilizam de organização territorial e vigilância contra o Estado imperialista ianque e os últimos atos organizados pela Liga Anti-Imperialista (LAI) em diversos países, mostrando a coesão do povo contra o imperialismo.
No Brasil, a Liga dos Camponeses Pobres (LCP) se pronunciou acerca do assassinato do camponês Adeildo, no Mato Grosso, declarando: ‘Quanto ao latifúndio assassino, seus sequazes e lambe-botas, que não sapateiem tanto! O castigo vem a cavalo, mas vem. Num mundo e num País tormentosos em que vivemos o castigo pode vir como um raio!’.