[DF] Estudantes da UnB realizam ato em resposta às investidas do baderneiro de extrema direita Wilker Leão

Reproduzimos matéria do Jornal A Nova Democracia

Estudantes organizados desafiam o celerado Wilker Leão e seus capangas. Reprodução: AND

Nos últimos dias, a Universidade de Brasília (UnB) voltou a ser alvo das provocações do youtuber baderneiro de extrema direita Wilker Leão, candidato a deputado federal pelo Novo. Após a porca propaganda eleitoral em que aparecia diante de uma pichação com “Viva a Revolução Agrária!”, arrotando que iria criminalizar aquele tipo de manifestação política, e de desferir ataques contra o Instituto de Artes (IdA) da universidade, o insosso reacionário convocou apoiadores para seu primeiro ato de campanha no campus. As investidas, porém, serviram para unificar e mobilizar estudantes e artistas em defesa de suas liberdades de expressão artística e política e de seus direitos democráticos.

Centenas de estudantes e ativistas de movimentos populares estiveram presentes no Departamento de Artes Visuais (VIS) no dia 27 de agosto, realizando inúmeras intervenções políticas e artísticas nos muros do departamento. O estudante Nicholas Eduardo, de 18 anos, relatou à correspondência de AND que ficou sabendo da atividade cultural após receber pelo Instagram a divulgação do Coletivo de Base Honestino Guimarães (CBHG), que denunciava as investidas de Wilker e convocava os estudantes a reagirem. Nicholas avaliou que as provocações do candidato mais uma vez tiveram resultado contrário ao pretendido. “Acabou que não deu certo também, né, a provocação dele. Ele saiu como uma chacota, na real”, afirmou.

O ato político-cultural foi resultado de uma mobilização iniciada dois dias antes. Em 25 de agosto, passou a circular entre grupos de WhatsApp de estudantes da universidade um áudio em que Wilker convocava apoiadores para seu primeiro ato de campanha, definido por ele próprio como sua “campanha na confusão com os inimigos”, “bem ao meu estilo”.

No áudio, Wilker afirmava que iria ao IdA, cujos muros possuem inúmeras intervenções políticas e artísticas feitas pelos estudantes e que ele já havia denominado de “parede satânica”. “A gente vai pegar a Faculdade de Artes, que é o prédio mais pintado lá da universidade, e revitalizá-lo, ou pintando de branco”, dizia.

O próprio candidato declarava ainda pretender levar “pelo menos umas 100 pessoas” para diminuir a possibilidade de ser hostilizado e admitia que o ato poderia gerar “problemas futuros, talvez de processo”. A justificativa era explícita: “Porque vai dar mídia”. Segundo Wilker, aquele seria o primeiro ato que iria “deflagrar” sua campanha.

Diante da ameaça de depredação das intervenções artísticas e da nova provocação, ativistas do CBHG e outras organizações estudantis emitiram chamados imediatos à mobilização. Em publicação, estudantes denunciaram que, “dessa vez, ele virá não para atrapalhar aulas, como é de seu costume, mas para depredar o prédio do Instituto de Artes Visuais”.

A atuação do CBHG também se voltou contra a postura da burocracia universitária. Um representante do coletivo independente gravou um vídeo denunciando que a direção do IdA ordenou que as paredes fossem pintadas de branco antes mesmo da chegada de Wilker e pressionou estudantes para que apagassem uma publicação de convocação ao ato.

O coletivo afirmou que retirou a publicação por consideração aos estudantes que fizeram o pedido, mas manteve a mobilização e classificou a medida da direção como censura institucional em um momento de ofensiva da extrema direita contra a universidade pública. O vídeo alcançou mais de 100 mil visualizações até o fechamento desta matéria.

Nas duras críticas, o representante declarou que “trastes e ratos, como Wilker Leão — que devem ser mandados de volta para o bueiro de onde vieram — vêm para essa universidade para defender suas pautas, que são contra o povo, pautas que são contra os estudantes, que defendem a falta de liberdade, de democracia estudantil”.

Mesmo com as artes apagadas após a pintura das paredes, dezenas de estudantes compareceram nas primeiras horas da manhã de 26 de agosto para impedir a provocação anunciada por Wilker.

Em entrevista ao AND, a estudante do IdA Marie relatou que a intenção de pintar as paredes do departamento de branco já vinha sendo defendida por professores, contra a vontade de estudantes. Segundo ela, a coordenação orientou os alunos a não comparecerem ao ato sob a justificativa de evitar confrontos.

“Foi muito mais aproveitando essa situação para fazer o que o departamento sempre quis”, afirmou Marie sobre a pintura. Para a estudante, a campanha de Wilker pouco tem a ver com qualquer preocupação com o patrimônio ou com as artes produzidas no instituto.

“Ele tá pouco se f… com as nossas paredes, ele tá pouco se f… com a história do nosso departamento, ele tá pouco se f… com o que é arte e o que não é, tá ligado? Ele só quer voto. Ele só quer um clipezinho viral ali”, afirmou. Ao avaliar o comportamento de Wilker diante da mobilização estudantil, concluiu: “Porque o bicho é um covardão, tá ligado?”.

O ato de campanha de Wilker estava marcado para as 8h, mas o candidato não apareceu no horário anunciado. Os estudantes mantiveram a mobilização e afirmam que chegaram a identificá-lo sozinho, à distância, sem se aproximar enquanto os manifestantes estavam em maioria. Quando apareceu posteriormente, estava acompanhado de apoiadores e homens que atuavam como seguranças.

Um áudio divulgado pelo perfil “Tropa do Trompetista” acrescentou outro elemento à campanha. Na gravação, uma pessoa convoca integrantes de torcida organizada para comparecerem ao ato e afirma que receberiam R$ 150 para atuar na segurança do grupo que acompanharia Wilker.

“É 150 pila na mão […] a molecada brota lá, eles vão pintar lá a UnB, pintar as pixação, e a gente vai ter um grupo lá de segurança para não deixar ninguém bater nos cara que tá pintando, e a gente vai só receber nossa grana […] de 8h à 13h”, afirma a voz na gravação. Em outro momento do material, é mencionada nominalmente a Jovem Fla e Wilker é acusado de ter contratado o grupo.

A denúncia também abre uma questão eleitoral para a campanha. A lei das eleições considera a remuneração de pessoas que prestam serviços às candidaturas um gasto eleitoral e estabelece regras e limites específicos para contratação direta ou terceirizada de pessoal de campanha e mobilização de rua. Nas eleições de 2026, esses gastos estão sujeitos à prestação de contas perante a “Justiça” Eleitoral.

Caso o pagamento relatado no áudio tenha sido realizado pela campanha e permaneça fora de sua contabilidade, pode configurar gasto eleitoral ilícito. A jurisprudência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) define como “caixa dois” o dinheiro utilizado para financiar atos de campanha que corre à margem do sistema legal de fiscalização, inclusive quando a despesa deixa de ser contabilizada; a omissão dolosa de informação relevante em prestação de contas pode ainda configurar o crime eleitoral de falsidade ideológica previsto no artigo 350 do Código Eleitoral.

Durante toda a manhã, apesar da presença dos seguranças e das sucessivas provocações, os estudantes permaneceram mobilizados. Entre intervenções da segurança do campus, os conflitos quase chegaram a uma briga generalizada.

Até mesmo trabalhadores terceirizados da limpeza comentavam com desgosto a presença do candidato. “Esse menino saiu lá do Goiás pra perturbar aqui?”, questionou um deles, segundo relato recolhido pela correspondência.

As atuais investidas de Wilker Leão começaram junto ao período de campanha da farsa eleitoral. Em 16 de agosto, o youtuber lançou um vídeo em que, atormentado por uma pichação com as consignas “Viva a LCP! Morte ao latifúndio! Viva a Revolução Agrária!”, assinada pelo Movimento Estudantil Popular Revolucionário (MEPR), latiu que “esse tipo de pichação vagabunda e criminosa de esquerda será devidamente criminalizada a partir das ações do meu mandato”.

No mesmo vídeo, desferiu ataques contra estudantes, professores e a educação pública e arrotou que “mais nenhum aluno militante ou professor doutrinador terá sossego para produzir a sua imundice de esquerda nesse lugar”.

Wilker não é o único candidato da extrema direita a utilizar a UnB vazia ou estudantes isolados como cenário eleitoral. Victor Jansen (PL), candidato a deputado distrital, também publicou recentemente um vídeo gravado à noite no campus em que arrancava propaganda política e atacava cartazes em homenagem ao dirigente comunista Basavaraj, materiais de apoio à Guerra Popular na Índia e cartazes contra o genocídio do povo palestino pelo sionismo. O regressista também prometeu instalar câmeras com áudio dentro das salas de aula.

Essas idas e vindas dos agitadores já são conhecidas dos estudantes. No início de 2025, elementos da extrema direita realizaram uma série de ações contra espaços estudantis da UnB, particularmente centros acadêmicos e manifestações em defesa da Palestina e da Revolução Agrária. Aproveitando o recesso das aulas, chegaram a entrar na universidade praticamente vazia para cobrir com tinta branca grafites do Centro Acadêmico de Artes Visuais (Cavis) e espalhar propaganda bolsonarista.

Quando anunciaram uma nova incursão no início das aulas, a resposta foi a organização dos estudantes. Após circularem mensagens em que integrantes da extrema direita falavam em “trocar porrada com os vermes” e cogitavam portar spray de pimenta e armas de eletrochoque, estudantes, professores, sindicalistas e integrantes de organizações populares organizaram sua autodefesa. O ato da extrema direita foi transferido para a Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), enquanto os estudantes mantiveram a manifestação dentro do campus.

A reação às sucessivas investidas já havia sido sintetizada pela Coordenação Regional do MEPR no Distrito Federal em nota publicada em agosto de 2025. Em nota, o movimento afirmou que a “coragem” desses grupos se dirigia sobretudo a “papéis na parede e estudantes isolados” e defendeu que estudantes, centros e diretórios acadêmicos organizassem de forma independente sua autodefesa contra novos assédios, provocações e agressões.

Um ano depois, um representante do MEPR avaliou ao AND que houve uma mudança também na postura da burocracia universitária. Segundo ele, diante da convocação estudantil para barrar a nova investida de Wilker, setores da universidade “tentaram intimidar estudantes a cancelarem sua mobilização e decidiram pintar os muros do departamento de artes visuais, vejam só, antes que Wilker pintasse, cobrindo anos de intervenções políticas e artísticas dos estudantes do departamento”.

Para o ativista, a decisão dos estudantes de manter a manifestação apesar dessas pressões acabou produzindo o resultado contrário ao pretendido pelo candidato: “deu exemplo de combatividade aos demais estudantes, que se somaram à mobilização e impulsionaram a manifestação”.

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