Reproduzimos matéria do Jornal A Nova Democracia.
Na última sexta, cerca de 50 estudantes da Universidade Federal da Bahia (UFBA) realizaram uma combativa manifestação contra a precarização dos ônibus universitários da UFBA, também conhecidos como “buzufbas”. O prédio da Pró-Reitoria de Ações Afirmativas e Assistência Estudantil (PROAE) foi ocupado durante o ato.
A manifestação iniciou-se com concentração às 9 horas da manhã em frente à Pró-Reitoria de Ações Afirmativas e Assistência Estudantil (PROAE), na rua Caetano Moura. Em frente a PROAE, os estudantes independentes realizaram intervenções e denúncias sobre a situação calamitosa que se encontram os ônibus universitários e a assistência estudantil. Durante o ato, transeuntes apoiaram a atividade com buzinadas e palavras de apoio.
Os manifestantes carregavam cartazes com os dizeres “Por um BUZUFBA decente, pontual e confiável”, “transporte é permanência estudantil” e “estudantes merecem um serviço decente”, além de uma grande faixa vermelha com a palavra de ordem “Pelo aumento da rota, frota e qualidade dos BUZUFBAS: Rebelar-se é justo!”.
A construção do ato foi decisão coletiva de dezenas de estudantes que participaram da última assembleia no campus São Lázaro ocorrida na segunda-feira (14), quando Pavilhão Raul Seixas (PRS) foi tomado pelos estudantes para levantar suas críticas e reivindicações sobre o transporte universitário, marcando a tomada de decisão por elevar as mobilizações em torno de melhorias no transporte.
A reunião aconteceu após a decisão pela alteração de trajetos e redução das linhas do BUZUFBA, que fez tomar corpo reinvindicações históricas dos estudantes. Segundo estudantes, o maior afetado é o campus São Lázaro. “Em São Lázaro está chegando pouquíssima rota e, quando chega, estão lotados.”, conclui um estudante. Segundo relatos, não é raro que, devido a superlotação, o micro-ônibus quebre em ladeiras, pondo em risco a integridade dos estudantes.
Os relatos dos estudantes dão conta de que, apesar de hoje ser mais aguda, a mobilidade entre os campus sempre foi uma pauta cara aos estudantes que precisam se deslocar quilômetros para assistir às aulas, atravessando diversos bairros de Salvador.
A superlotação, sucateamento do serviço, frequentes quebras, falta de cumprimento com os horários e horários insuficiente para o campus São Lázaro, pressões aos motoristas terceirizados, falta de rota para o campus pelourinho e falta de acessibilidade para PCDs foram as principais pautas levantadas pelos estudantes durante a assembleia.
Também foi alvo de críticas o Diretório Central dos Estudantes (UJS/JPT) que não compareceu durante a assembleia. Dias antes, o DCE havia emitido uma nota em que afirmava que “Quaisquer alterações só deverão ser aplicadas após amplo debate e participação do DCE”. A nota foi respondida e duramente criticada por estudantes independentes que defenderam “qualquer conquista e melhoria dos BUZUFBAS será arrancada por ampla participação das massas estudantis” e que “os estudantes não precisam de autorização do DCE para conduzir sua luta”, denunciando a nota do DCE como um “convite a renegar o caminho da luta”. Durante a reunião, outros estudantes também criticaram “as posturas burocráticas assumidas pelo DCE ao longo dos anos”.
Ao AND, uma pessoa representando o coletivo PCD falou um pouco sobre as mudanças dos trajetos dos BUZUFBAS. “Escutamos algumas pessoas falando que foi uma reivindicação do coletivo PCD e que tudo ficou pior, mas nosso pedido foi completamente diferente. (…) Não necessariamente trocar horários, trajetos foi mais em questão da saída dos BUZUFBAs.”, declarou a representante.
Durante a manifestação, a ausência do DCE nas duas atividades foi novamente criticada. “Não se pode questionar nenhuma política pública sem questionar o papel do DCE. Onde está o DCE? Onde está o Reitor? Enquanto nossos direitos estão sendo retirados, cadê esse pessoal todo que em teoria está responsável por zelar pelos nossos direitos?”, indagou um estudante. Ao AND, um estudante revelou que, nas vésperas do ato, o DCE anunciou supostas conquistas, dando a entender serem suas, para a mobilidade estudantil e também anunciaram que possuíam uma reunião agendada com a pró-reitora às 10 horas. Na prática, nem o DCE nem a pró-reitora compareceram.
Sobre as “conquistas do DCE”, o coletivo PCD da UFBA também se pronunciou. “E, para piorar, tivemos acesso a movimentos que jamais somaram conosco, com o Fórum de São Lázaro ou com estudantes da FFCH, IPS ou EP, e que estavam tomando nossa conquista para si”, afirmou o coletivo sobre o anúncio do DCE da conquista da rota do B1 partindo de São Lázaro.
Ao final do ato, os estudantes ocuparam o prédio da PROAE, entoando as palavras de ordem exigindo falar com a pró-reitora “Oh Cássia, cadê você?! Eu vim aqui só para te ver!”, “PROAE, me escuta, cadê nosso BUZUFBA?” e “Sou estudante, eu sou. E quero estudar, mas sem BUZUFBA não dá. Vamos à luta!”. Neste momento, os estudantes conseguiram falar diretamente com a representante do transporte. Segundo os estudantes, a representação não foi capaz de apresentar resoluções e ficou claro para os presentes a necessidade de se elevar ainda mais as mobilizações.
As modificações de trajetos, horários e o sucateamento dos ônibus universitários da UFBA ocorrem no cenário de crescente calamidade causada perante os cortes de gastos impostos diuturnamente às Universidades Federais da Bahia. Recentemente, o setor de Almoxarifado e Patrimônio da UFBA declarou a restrição no fornecimento de sabonete líquido e papel toalha no Instituto de Ciências da Saúde (ICS) perante a redução de 10 milhões de reais no orçamento da universidade, causada pelo decreto do governo federal que contingenciou R$ 15 bi em despesas discricionárias.
“Os cortes feitos pelo Governo Federal afetam nós, que somos pesquisadores, que precisamos de subsídios da universidade. Estamos tendo dificuldades com itens básicos como comprar cartuchos para impressora e papel. Tudo está contido”, denunciou um professor.
O Comitê de apoio de AND de Salvador reafirma seu compromisso de seguir acompanhando e denunciando o caso com reportagens nos próximos dias.
