
Na sexta-feira, 28/08, um grupo de três estudantes, moradores da ocupação do Módulo III da Moradia Estudantil, foram barrados de entrar onde residem, pois a burocracia universitária não reconhece a legitimidade do atual espaço utilizado como moradia dos estudantes indígenas. Os estudantes chamaram demais moradores e apoiadores para o local e denunciaram a postura agressiva do segurança como um caso de racismo.
Houve então a aglomeração de diversos moradores no local, que denunciaram a forma com que a entrada de visitas tem sido lidada recentemente. Este episódio é mais um em uma série que envolve todos os estudantes, mas que no caso dos estudantes indígenas, diz respeito à sua própria permanência no espaço da Moradia.
Os estudantes indígenas, em sua grande maioria da etnia Laklãnõ-Xokleng, que ocupam o Módulo III da Moradia Estudantil da UFSC, vem sofrendo uma série de tentativas de intimidação por parte da Reitoria da universidade para que deixem o espaço. Os estudantes sempre tiveram de se mobilizar para garantir seu direito à moradia, diante de diferentes gestões da reitoria e de sua contínua política de precarização de um direito estudantil, agora a nova gestão mostra a que veio, sendo as suas primeiras políticas para a Moradia justamente a restrição do horário de visitas para 22 horas, ignorando a decisão de assembleia estudantil, e a tentativa de retirada dos moradores da ocupação do Módulo III.
A ocupação do Módulo III começou no mês de junho, a partir da organização dos estudantes indígenas, com o apoio de estudantes independentes, para garantir um espaço para a moradia dos diversos alunos indígenas que chegam à UFSC sem terem condições de pagarem os altos preços de aluguel da cidade e que não encontram, por parte da universidade, uma política que contemple suas necessidades.
Diferentemente das outras ocupações organizadas por esses estudantes, esta se dá dentro do espaço da Moradia Estudantil, que possui uma dinâmica própria de funcionamento, com seguranças da UFSC que guardam a entrada e saída de moradores e visitantes. A Moradia cumpre uma função essencial dentro da universidade, sendo uma das políticas decisivas para a permanência de diversos estudantes marginalizados dentro do ambiente universitário, que possuem um longo histórico de mobilizações para a garantia de seus direitos frente à constante política de precarização que o espaço sofre.
Os problemas com a moradia como um todo, e particularmente com a ocupação do Módulo III se acirraram desde a posse da gestão ‘Mudar para Transformar’, do Reitor Amir de Oliveira e da Vice Felipa Amadigi.
Tentativas de esvaziar o Módulo III
Sobre a ocupação, em reunião com seus moradores no final de julho, já no período de férias letivas, quando apenas duas estudantes permaneciam no espaço, a responsável pela Pró-reitoria de Assistência Estudantil (PRAE) afirmou que seria necessária a retirada dos estudantes do local para a realização de uma reforma do espaço. A reforma, que repentinamente surgiu para solucionar todos os problemas do Módulo III, está sendo usada como uma tática para desocupação do espaço, prometendo que os estudantes poderiam retornar após o fim das obras.
Como foi visto no dia 28, contudo, o protocolo de segurança dos vigilantes não reconhecia os ocupantes como moradores, mesmo após a lista de moradores do Módulo III ter sido entregue à Diretora da PRAE, e recentemente ter sido atualizada. Justamente por isso, a realização da reforma em partes, levando em conta a presença dos alunos, apesar de plenamente possível, não foi sequer considerada.
Primeiramente, os estudantes sustentaram a posição de permanecer no local durante o período de reforma. Diante da resposta, a Reitoria recuou, afirmando que a obra não possuía urgência para ocorrer, e que como seria necessária a saída dos estudantes devido ao fechamento do registro de água e da troca de fios elétricos, ela poderia ser adiada.
Apesar do que havia afirmado anteriormente, a Pró-reitora de Assistência Estudantil, sabendo que a maioria dos alunos havia retornado à suas respectivas aldeias, surpreendeu uma das estudantes que permaneceu no espaço ao aparecer no alojamento, pressionando para que o Módulo III fosse esvaziado, pois a equipe da reforma iria começar a obra na tarde do mesmo dia, 29/07. Diante da tentativa de intimidação, a estudante afirmou que não poderia decidir sobre a saída do espaço pelo coletivo dos estudantes, e que a UFSC estava ciente da saída da maioria dos moradores do espaço, tendo concordado em adiar a reforma. Com a chegada de mais pessoas ao local, mesmo que ainda em poucos números, estas se recusaram a sair do espaço, que conquistaram através de sua mobilização e organização, apesar da obra já estar ocorrendo enquanto o utilizavam, alterando seus horários e constantemente interrompendo seu fornecimento de água e eletricidade.
Estudantes resistem em sua ocupação!
Nesse período, após permanecerem na ocupação, os moradores começaram a se sentir intimidados durante a noite, pois a tranca que utilizavam era improvisada, devido à reforma. O clima de insegurança se confirmou quando, na madrugada de 05/08, diversos itens do Módulo III foram roubados através de uma invasão, como uma air fryer, itens pessoais, comida, entre outros eletrônicos.
Diante do caso, com mais alunos já de volta à UFSC, foi decidido pela reocupação de sua antiga moradia, a Casa Amarela, ao mesmo tempo que se reafirmou a necessidade de permanecer no Módulo III, como forma de lutar pela construção da Moradia Indígena definitiva. Desde então, os alunos estão pressionando para obterem as imagens do furto, bem como denunciando todo o descaso e tentativa de intimidação que a Reitoria vem realizando com relação à política da moradia estudantil, particularmente indígena.
Intimidações da Reitoria
Ao realizarem novas reuniões com a PRAE e o Ministério dos Povos Indígenas (MPI), requisitando imagens sobre o furto e cobrando uma política de moradia da administração, ouviram respostas contraditórias sobre as imagens do ocorrido, bem como posicionamentos incoerentes com o que havia sido dito anteriormente, como no caso da realização da reforma, ao passo que o MPI se mostrava leniente com a posição da Reitoria e imobilista perante as demandas estudantis.
Sobre as filmagens do furto, a primeira resposta da PRAE foi que estas haviam sido solicitadas ao Departamento de Segurança (DESEG), e que ainda não haviam sido recebidas, porém, ao perguntar pelas mesmas imagens para o responsável da DESEG, este afirmava que nenhum pedido havia sido feito. Após contínua pressão, a Reitoria afirmou não existirem imagens de segurança no período de toda a semana em que o furto ocorreu, sem fornecer qualquer explicação do porquê das câmeras supostamente não funcionarem justo naquela semana.
Desde então, houve um novo furto, desta vez de material da reforma, que causou novos desgastes, principalmente após a acusação da Reitoria de que foi um dos estudantes indígenas que roubou o material. Enfrentando dificuldades para entrar na moradia, pois diversas pessoas cujos nomes estavam na lista de visitas não eram autorizadas a entrar no espaço, e tendo de se reunir ao mesmo tempo com o MPI e a PRAE para ter suas demandas ignoradas, os estudantes enviaram a lista atualizada de moradores do Módulo III no dia 27/08, mas ela não foi encaminhada para a portaria da Moradia Estudantil, que detinha apenas a listagem anterior.
Foi então que ocorreu o episódio do dia 28/08, em que não apenas um estudante foi impedido de entrar, apesar de seu nome constar na lista que estava na portaria, como uma das moradoras foi agredida por um dos seguranças patrimoniais, que a segurou para que ela não adentrasse no terreno da Moradia Estudantil. Quando mais pessoas chegaram e se reuniram na entrada da moradia para pressionar contra o absurdo da situação, a atual responsável pela gestão da Moradia, Marcela Boro Veiros, cedeu em liberar as antigas regras de visitação – que havia sido aprovada em assembleia da Moradia Estudantil –, e um boletim de ocorrência foi registrado pelas pessoas impedidas de entrar, por racismo, visto que esse mesmo estudante fora impedido de entrar outras diversas vezes.
Longo histórico de luta por moradia
A ocupação do espaço ocorre como uma continuidade da luta por moradia que os estudantes empreendem desde pelo menos 2016, quando ocorreu a primeira ocupação do Campus, a ‘Maloca’. Desde então, a luta se agudizou, particularmente com a ocupação da ‘Casa Amarela’, realizada no final em 2025, que decidiu avançar as demandas estudantis por moradia e denunciar a situação da Maloca, que já se encontrava superlotada e extremamente precarizada, rompendo com o imobilismo da universidade, que institucionalizou a ocupação, lhe concedendo reconhecimento burocrático, mas não garantiu os meios para que a estrutura e convivência fosse adequada para os moradores, assim demonstrando uma das formas mais clássicas de exercer controle social e amansar a revolta estudantil.

Como noticiado por AND, a ocupação da Casa Amarela não buscava resolver o problema da falta de moradia, já histórico para a UFSC, mas pressionar para a construção do ‘Espaço do Fogo’, projeto de moradia permanente para os estudantes indígenas da instituição, levando em conta as especificidades culturais de cada povo.
O projeto, iniciado em 2018 pelo departamento de Arquitetura, recebeu a premiação do Instituto de Arquitetos do Brasil – Departamento Santa Catarina (IAB-SC), na categoria “Edificações e projetos”. Desde 2024, no entanto, não se ouviu mais falar no projeto, cuja execução não saiu do papel. A construção de um alojamento muito menor, no mesmo ano, não conseguiu suprir a necessidade de moradia para os estudantes indígenas de diferentes povos que estudam na UFSC.
Dessa forma, a antiga Secretaria de Esportes se tornou a base para o avanço na mobilização dos estudantes indígenas na universidade, se tornando, enquanto Casa Amarela, um espaço para sua organização. Ainda assim, o local em si não supria todas as suas necessidades, visto que era pequeno demais, e as adequações necessárias para se constituir enquanto um alojamento adequado foram reiteradamente negadas pela instituição.
Enfrentando diversas dificuldades para permanecerem no Módulo III, os estudantes reafirmam não apenas que continuarão ocupando o espaço, como também a Casa Amarela, pressionando a Reitoria para que construa uma moradia indígena definitiva.
